jardineiros

Onde se fala de cidades e dos seus jardineiros.

quinta-feira, abril 20, 2006

No outono da minha vida

Acordo cedo, as voltas do sonho e do sono destapam-me a perna, o frio suave da madrugada acorda-me. Tapo-me, ajeito-me na cama. Sinto a recordação da tua presença .... como uma suave recordação do dia de ontem, do dia de ante ontem. Adormeço de novo com um sorriso de felicidade. Acordo cedo todos os dias, e neste domingo de Março permito-me ficar na cama mais tempo. À espera que sejam horas de querer levantar-me. Estou sem jeito. Digo o teu nome de mim para mim e penso em tudo o que nos sucedeu. Em tudo o que me sucedeu. Afinal ser feliz não é assim tão dificil. Difícil é sobreviver à felicidade.

Gosto da veneração que sinto por ti, da dedicação que me dás, e de me ver através dos teus olhos. Tu fazes-me parecer mais bonito quando me vejo ao espelho.

Agora faltam-me as palavras que nunca me faltaram. A tua presença (mesmo na ausência) flana à minha volta. Comovo-me com as tuas palavras, o teu gesto, o teu jeito de carochinha a fazer coisas sem parar.

Subo ao céu, eu que odeio elevadores, quando primo o algarismo nove que me levará a tua casa. Depois, é este encontro que não tem fim e a que chamámos amor. E que inventamos todos os dias. Aqui no outono da minha vida eu já não contava que isto acontecesse assim.

Agora vou fazer coisas, vou receber-te na minha vida como me recebes no teu corpo.

domingo, janeiro 08, 2006

A ponte é a versão checa da avenida dos campos elísios em Paris.

31 de dezembro de 2005 a caminho de praga .... sozinho em praga. Acabar de novo ... ora bolas ... é preciso fazer alguma coisa. Vou a Praga.

Antes da viagem começar ainda é preciso passar num cliente. Estou em casa, de banho tomado, passei duas horas numa banheira de agua quase a ferver para acabar com esta dor de costas que a viagem de avião que se avizinha provoca. Enquanto aperto os atacadores das botas faço mentalmente a viagem entre o meu apartamento da av de roma e o escritorio do meu cliente.

Decido preferir o meio da cidade em vez de ir pelas circulares de transito rapido onde não há semáforos mas também não há pessoas. Concebo o percurso e apercebo-me que vou passar perto da Sé - a catederal de lisboa - e da Igreja de Sto António padroeiro da cidade e dos namorados. É lá que as pessoas de Lisboa vão pedir uma namorada ou um namorado ao pobre do esforçado santo que, justiça lhe seja feita, atende sempre os pedidos. Com calma e empenho peço mentalmente ao santo que me arranje uma namorada, especifico as qualidades, que o santo tem que saber o que quero, e por fim acendo uma velinha na capela. Não posso, é um imperativo que me imponho, tirar dignidade, quer ao santo, quer à capela, quer às pessoas, quer à namorada que desejo. Sou agnóstico, é certo, mas a atitude religiosa está acima da postura filosofica que assumo sobre o assunto. Talvez eu apenas recuse, da religião, o que não gosto e fique apenas com o que gosto, colocando-me no papel do agricultor que quer fazer vinho e vender as uvas tudo ao mesmo tempo. Talvez me cubra de ridículo.
Obter de Sto António a graça de uma namorada, é um desafio ao destino. Como disse Jack London .... e os deuses hão-de continuar a rir-se.

Levanto vôo, tento assumir um ar de turista, fotografo a asa do avião - devem haver 500 milhoes de fotografias destas a ser tiradas neste momento, tantas quantas janelas de avião, neste momento no ar, têm visibilidade para a asa. É o meu casaco de turista. Sentado num café do aeroporto em Paris, sinto a agradvel sensação de estar a ser observado por uma mulher da minha idade, cuja nacionalidade desconheço mas que lê banda desenhada. À minha frente um casal jovem lê o jornal e ele acaricia ao de leve o braço dela. Passa quase uma hora nisto. Já não me lembro como é que aquilo se faz. Valha-me Santo António.
O meu traje de turista inclui umas botas de "salto de prateleira" são botas ribatejanas, passo no segurança que dá acesso ao avião e fazem-me tirar as botas para as passarem "na máquina que vê as coisas por dentro" rimo-nos todos da minha figura ridicula, sem botas, por fim revistam toda a gente menos a mim.

Vou tentar dormir um bocadinho, não sei que sonhos terei num cadeirão cor de laranja. Há pouco, no avião, sonhava que estava a sonhar que estava abraçada à Mafalda numa discoteca perdida no meio de um pinhal lá onde - esse sim - Judas perdeu as botas. Afinal era verdade, a Mafalda fez-me um jantar delicioso e levou-me a passear e a dançar até serem horas do avião e era essa grata recordação que povoava os meus sonhos. Linda jovem Mafalda.

Aborrece-me ja nao conseguir ler, nem escrever, sem óculos. Se, usar oculos de leitura, me dava um ar maduro e sofisticado agora é um handicap. De cada vez que tento decifrar um escrito em lingua checa e não consigo entender os caracteres, distancio-me mais de perceber estas pessoas. Cheguei a Praga com vontade de conhecer as pessoas daqui, a única maneira de o fazer é perceber como estas pessoas pensam, ou seja o que é que é importate para as pessoas.
Como andei a passear com a Mafalda, na véspera da minha partida, não dormi e estava cheio de sono às seis da tarde do último dia do ano. Perdi-me na cidade e dois jovens guiaram-me, a pé, até à rua do meu hotel. Rsolvi ir dormir uma sesta até às onze da noite. Horas antes, ao chegar a Praga, o meu cartão visa não me permitiu levantar coroas suecas. Pensei que a minha desorganização crónica já me tinha pregado mais uma partida desagradavel. Um telefonema para o banco, depois de passar uma hora a tentar descobrir o numero internacional, lá me revelou que afinal tinha-se apenas esgotado o limite diário de levantamentos.

Uma rapariga checa meteu-se comigo e perguntou-me se no voo Paris Praga tinha havido muita turbulência. Na viagem de taxi aprendo duas palavras em checo ; iekui - obrigado e promci - por favor. No dia seguinte de manhã aprenderia dublerana - bom dia. Chego ao hotel ainda muito perturbado pela falha do cartao visa e tudo me parece feio, estragado, partido e reles. Acho que estou a ser reoubado e vejo, com uma severidade de quem está chateado, nos olhos azuis e cabelo loiro do recepcionista, um ar nazi e explorador. Subo ao quarto, num elevador que não me inspira confiança, e depois do telefonema para o banco que me pacificou, instalo-me em Praga. Olho pela janela, abro-a e afasto um bocado de neve, num gesto que tantas vezes vi no cinema mas que faço pela primeira vez e olho para Praga através do ar gelado. Vai anoitecer em breve e a neve que cobre os telhados e os quintais, que Praga tem muitos quintais, dá à cidade um ar romântico.

Se a Mafalda, linda Mafalda, estivesse aqui pintávamos a manta penso.

Há uma miríade de pequenas coisas que afecta a vida das pessoas e que muda a sua atitude. Lá fora estão cinco graus negativos - o taxista disse-me que estava bom tempo - está a chover ou a nevar e é preciso preparar-me para enfrentar a intempérie. Durante estes dias, que vou passar em Praga, vai ser preciso fazer este ritual todo cada vez que entre ou saia de um sítio, cada vez que entre ou saia do Hotel.

Saio à rua, afinal o frio não é assim tão insuportável. Ainda bem que trago umas calças para o frio, debaixo das minhas calças de caqui, e o gorro e as luvas são acessórios essenciais. As minhas botas ribatejanas aguentam-se bem na impermeabilidade, mas muito mal em cima da neve. Escorrego uma duzia de vezes antes de ganhar este andar de pato que me impede de cair ao chão. Está a chover ou a nevar, mas só os estrangeiros é que usam guarda-chuva. Ora aqui está um povo prático. O guarda chuva é um artefacto péssimo. Desço a avenida que tem o nome do presidente da camara e entro no emaranhado de ruelas que me levará à ponte charles cuja história desconheço mas que é o ex libris da cidade. Praga tem pouco mais de um milhao de habitantes (o dobro de Lisboa) mas parece-me, talvez porque acabo de chegar de Paris, uma cidade pequena. As pessoas, não me parecem nada comunicativas, é um erro de paralaxe meu, estou sozinho, um pouco apreensivo, não sei orientar-me aqui, vai anoitecer, daqui a pouco há uma festa de fim de ano a que a tradição me manda comparecer, estou cansado por não ter dormido, viajei hoje 2247 kms - sejamos precisos - de avião, fiz duas escalas, e sabia-me bem conversar com pessoas e sentir o afecto de seres humanos. No estado em que estou isso não vai acontecer.

Tomado por estes pensamentos acalmo-me e fruo a minha solidão relativa.
Hoje é dia 31 de Dezembro, toda a gente está numa euforia histérica de festa, eu sou um estrangeiro e estou sozinho. Assisto a isto tudo, agora, com um sorriso nos labios. Encontro a ponte que procurava, tem um tapete de neve que não deixa ver o pavimento, escavo a neve com as minhas botas de salto de prateleira e não chego ao empedrado. Encanta-me isto. Japoneses, grupode de raparigas japonesas, chineses, ingleses, italianos - muitos italianos - franceses, alemães.

A ponte é a versão checa da avenida dos campos elísios em Paris.

Por varias vezes a musica que me calhou nos fones deu certinho com o que me estava a passar pela cabeça. Já deve ter acontecido a toda a gente. Ha pouco caminhava à saída do meu hotel em direcção aos sítios onde estão as pessoas. Pensava na ultima namorada que tive e cujas feridas de ter terminado ainda sinto. A musica que me calhou "La chanson des vieux amants" diz qqr coisa como isto "sim nós tivemos tempestades, .... , mil vezes pegaste nas tuas malas, mil vezes eu tomei o caminho da partida .... e cada movel se lembra das velhas tempestades" No segundo dia da minha estadia em Praga quando atravessava a ponte, desta vez a pedido da Dra Susana, as pessoas pareciam-me hostis. Coloquei os fones e a musica disse "People are strange when you are a stranger" Senti-me acompanhado e compreendido. É o Jim Morrison a fazer alguma coisa por mim quase cinquenta anos depois de ter morrido. Mais tarde pensava na Mafalda e a música disse "i was born to take care of you"

Os checos são um povo pratico. Na gramatica não usam artigos (o, a, um, uma) e na rua não usam guarda-chuva. As raparigas estão divididas em dois tipos, as que têm nariz convexo e não têm rabo e as que, portadoras de um belo e rotundo rabo, têm o nariz côncavo.

O comunismo - eles dizem sonho pesadelo opressão - foi implantado aqui em 1918, na sequência da queda do que restava do império austro hungaro depois do fim da 1a guerra mundial e beneficiando dos ventos que sopravam de moscovo depois da revolução de outubro de 1917. Em 1948 os sovieticos mandavam mais que os checoslovacos. Eu que sou um homem de esquerda - eu gostava de dizer comunista - fico chocado com isto tudo. Mas Praga está aqui a contar-me isto tudo ao ouvido e não ha nada a fazer.

Enquanto aqui estou recebo, de Portugal, a notícia que a doença da Felicidade não tem remissão. É uma amiga querida. É preciso fazer alguma coisa. Não sou médico. Xiça não sou Deus. E é com amargura que me deito no quarto durante umas horas a olhar para o cenario branco pela janela.
Praga.

De fones nos ouvidos atravesso a ponte que fica a montante da ponte Charles com o intuito de a atravessar a partir da outra margem. Caminho pela borda do rio, o caminho leva-me mesmo até à àgua. As pessoas passeiam por ali com as crianças e com os cães o que me dá oportunidades de confraternizar. Descubro que há uma coisa mais nojenta que cocó de cão na rua, é cocó de cão congelado.

Ponho-me de cócoras e vou experimentar meter a mão na água do Moldava. Está fria de partir ossos. A partir de agora sou mais de Praga. Meto-me no "Tram" uma espécie de trolei onde estranhamente, além de outras proibições, é proibido comer. Nunca me passaria pela cabeça uma coisa nem a outra. Comer num trolei ou proibir que se coma. A despeito das proibições e do disparate que tudo isto me parece, vários checos e checas, sacam do lanchezinho e lá vão comendo no "Tram" com o ar mais natural deste mundo. Mais tarde perceberia que essa mania é generalizada. Em qualquer momento se vê alguém a sacar de uma bucha e comer, panados, fruta, sanduiches, febras fritas com molho.

Vou-me deixando levar pelo no "Tram" até encontrar um aglomerado que parece um mercado de fruta. Desço. É um mercado chinês. Chamo-lhe chinês porque os mercadores são todos chineses. Em Praga raramente chove, mas neva três meses por ano e, nesses três meses, quando não chove ou neva, chove ou neva na mesma. Quer dizer .... não cai água nem neve do céu mas está tudo sempre molhado, o chão, os carros, as fachadas dos prédios, as minhas botas, os corredores do metro, o chão das lojas. Será por esse motivo que o mercado chinês está coberto por cima e pelos lados com umas lonas. Ali trabalham pessoas de todas as idades. A pessoa mais jovem que ali vi a trabalhar deveria ter sete anos, era uma menina que me vendeu umas pilhas que duravam 45 segundos (eu disse segundos, não minutos) no meu leitor de mp3. O mercado faz lembrar os cenários apocalípticos que o escritor de ficção científica Isac Asimov preconizava para 2006 e a que o cinema chamou Blade Runner. Lá compro as pilhas por um decimo do preço que me custaram umas, presumivelmente iguais, no aeroporto de Paris. Viva Praga penso antes de perceber que fui enganado.

Preciso de pilhas para o leitor de musicas. Quando me sinto aborrecido, ou as tentativas de perceber isto falham, coloco os fones e oiço musica. A música faz-me companhia. Eu digo, a música faz parte da felicidade.

Enquanto enregelo os pés na neve e tento manter-me na vertical faço breves considerações sobre a felicidade. Nestes quatro dias que aqui passei já vivi momentos felizes, sim.

sexta-feira, outubro 21, 2005

"As almas grandes têm muito em conta as coisas pequenas."

Desmonto-me da mota e desafivelo as correias da mochila. Coloco a mota no descanso. Enfio o capacete no braço num gesto muito à anos setenta. Retiro a chave da mota e certifico-me que a direcção ficou trancada. Preparo-me para atravessar a rua e cumprir um dos meus afazeres diários. É a vida …. penso. Fazer estas coisas todas dando um sentido qualquer à vida que eu próprio não entendo. Embrenhado nestes pensamentos olho à minha volta.
Lisboa !
Av Duque d’Ávila
A avenida tem uma fileira de árvores e carros ao centro. Estão um bocado mal tratadas e desalinhadas as árvores. Tento compreender o que se passa e as motivações que levaram a que tudo aquilo que me rodeia acontecesse. São milhares de horas de trabalho aqui neste pequeno círculo de 30 mts de diâmetro de que sou o centro. Em frente há um prédio com um baixo relevo estilizado em design da década de setenta muito ao jeito do meu gesto de meter o capacete enfiado no braço. Pergunto-me quem teria sido o arquitecto que teve o génio de desenhar aquilo. Que momento de inspiração lhe terá feito chegar àquela solução estética. E sobretudo qual terá sido o investimento emocional que colocou na criação. Criar suga-nos a alma.
Dirijo o olhar para dentro do prédio e vejo uns cartazes afixados na parede daquilo que julgo ser um escritório. Os cartazes têm uns desenhos mais ou menos ovalóides sugerindo aquilo que me parecem itens demonstrativos. Alguém desenhou aquilo, alguém concebeu aquilo e mais grave, e mais pesado também, alguém acreditou que aquela era a melhor solução. Alguém, mais uma vez, investiu emocionalmente naqueles cartazes. Que resultado terão dado afinal ?
Tento compreender e não compreendo. São seis da tarde. O que é que estas pessoas estão a fazer na rua a esta hora ? Estas pessoas todas estavam em suas casas, vestiram-se pentearam-se arranjaram-se e vieram para a rua fazer não sei o quê, mas que acreditaram ser importante nas suas vidas. Vieram trabalhar a maior parte delas eu sei. Cruzo-me com uma mulher quase jovem. Mal enjorcada, vestida a trouxe-mouxe, sem nenhum sentido estético com um rabo mal amanhado dentro de umas calças que deviam ser proibidas por lei. Junto ao pescoço está pendurado um berloque em loiça que lembra vagamente uma flor. Aquilo é demasiado grande. Está atado por um cordelito a imitar cabedal. Qual terá sido a motivação daquela pessoa, terá pensado de manhã ao vestir-se “que linda que fico com esta loicinha atada por um cordelito aqui no meu pescoço”
Toco à campainha do número 110, abrem-me a porta e eu entro, agora é a minha vez de ir fazer qualquer coisa inexplicável.
Afinal quem tem razão é a Paula lá do meu emprego “As almas grandes têm muito em conta as coisas pequenas.” Eu não sei o que isto significa mas certamente que o sentido da vida anda por aí.
Outubro de 2005

segunda-feira, outubro 10, 2005

nos seus vinte e cinco anos a brotar sensualidade

Um destes dias comecei a fazer contas ao trânsito e ao tempo que demorava a ir daqui para ali em Lisboa e decidi andar a pé sempre que possível. Saio de um cliente e percorro a pé uma boa parte da Av Fontes Pereira de Melo e o princípio da Avenida da República. Esta duas avenidas têm uma grande concentração de prémios Valmor e é sempre uma delícia andar por ali. É certo que nas grandes avenidas também há muito bulício e que o que resta nos pensamentos é absorvido pelo barulho e pelas mil coisas que estão a acontecer ao mesmo tempo. Logo no início da avenida, do lado esquerdo de quem está virado para o campo grande, há um prédio em construção / reconstrução com cães lá dentro a ladrar para guardar os tapumes e umas garagens exploradas por umas entidades esquisitas para se ganhar mais uns trocos que o estacionamento ali é caro e rentável. O que fica de passeio ali ao lado das obras é uma nesga de empedrado branco a lembrar a nossa bela calçada portuguesa. As pessoas caminham empoleiradas para não caírem no asfalto e nas malhas dos amarelos que ali passam a toda a brida. Cruzo-me com um par curioso. Duas mulheres que presumo serem mãe e filha. A filha terá sessenta anos e a mãe uns oitenta. Olho para elas com curiosidade. A mais nova tem um ar preocupado e esforça-se por manter a mãe numa linha mais ou menos recta em cima do passeio e a mais velha olha espantada para tudo o que a rodeia
A filha claramente toma conta da mãe não vá ela perder-se no meio da confusão da cidade. Penso que um dia a cena foi ao contrário. Aquela senhora de 60 anos já teve 5 anos de idade e andou por aquelas mesmas avenidas pela mão da mãe de quem ela agora cuida. Talvez de vestido branco com rendinhas e fitas e a mãe, hoje com 80 anos, nos seus vinte e cinco anos a brotar sensualidade. É uma lição de vida .... ali mesmo em frente a um prédio em construção e a olhar para o outro lado da avenida para a que foi a casa de Ventura Terra e é hoje o clube dos empresários .... um dos prémios Valmor desta bela avenida.

Jaime Roriz
Outubro de 2005

terça-feira, setembro 20, 2005

mas é no chiado que estão todas as mulheres bonitas

Como Mozart sinto-me assombrado pela memória de meu pai, perdoem-me a soberba. Tantas vezes ouvi, li e vi grandes homens assombrados e perturbados durante anos pela memória do pai. O que quererá isto dizer ? Catarse. diria a Felícia. Uma mulher que conheci dizia-me que depois das morte do pai demorou dois anos a ser capaz de retomar a sua vida sexual. Eu lembro-me, nos meus inocentes dez anos, do meu próprio pai aterrado no momento da morte dio pai dele. Nem sou bem capaz de dizer estas palavras. Pai. Devia ser uma coisa boa não é ? Mas é a maior das confusões. O homem tende a compreender. Tende a arrumar as coisas. Tende a ter cada emoção no seu sítio. Este cadinho onde as emoções não param quietas dentro de nós é que não pode ser. Sinto aqui algures no meio das tripas um nó que não ata nem desata. Que aflição.
Se eu pudesse não pensar. Se eu pudesse não sentir. A dor é uma prisão. Toma de assalto o sossego da pessoa.
Muitas vezes pensei que seria bom as pessoas terem um modo desligado. Agora durante umas horas é como se não existisse. Esta dor toda que nem cabe dentro de mim aliviava-se umas horinhas e pronto. Esta dor de existir, esta dor de sobreviver desaparecia. Depois quando a dor parasse de aumentar a gente ligava outra vez .....
Sou poeta e procuro nas palavras uma lufada de ar fresco. Um vento que me seque as lagrimas.
Afinal o que me dói mais é a vida. Olho para mim no espelho retrovisor da mota. Com espanto. Todos os dias me espanto.
Todas as pessoas vivem estas coisas que eu vivo. Porque é que eu me rasgo todo por dentro ? É dor de sentir ? Ah que merda de texto este que eu escrevo. Que confusão que é pensar. Que mundo esquisito este. Gostava de encontrar uma frase, uma imagem que num passe de mágica mudasse isto tudo. São as lágrimas que ainda tenho para chorar afinal. Toda a vida andei a mostrar uma bosta de boi como se fosse uma flor, afinal só me cobri de ridiculo.
Neste ano horrivel de 2005, nem sequer há mulheres bonitas. Olho à minha volta e tudo me parece desalinhado. Cruzo-me na rua com uma jovem mulher que podia ser bonita não fora teimar em mostrar uma barriga que não é para ser mostrada. Passeio pela cidade e as voltas das coisas para tratar e dos encontros com pessoas levam-me ao chiado. Não sei como, não sei explicar, aliás não sei explicar nada, mas é no chiado que estão todas as mulheres bonitas. Ide lá .....

quarta-feira, agosto 03, 2005

Marinheiro de duas rodas

Marinheiro de duas rodas tinha uma namorada, em vez de em cada porto, em cada portagem da auto-estrada.
Agosto 2005

quarta-feira, julho 27, 2005

Os Queen

Comprei um brinquedo. Um leitor de mp3. Vinha na mota a ouvir os queen (i was born to love you) e a fazer um bailado. As pessoas paravam nos semáforos e ficavam espantadas provavelmente de ver um cota como eu naqueles preparos. É um pensamento feliz e bem disposto para animar o teu dia.
Julho 2005

segunda-feira, julho 25, 2005

Todos os dias

Todos os dias acontecem coisas.
Julho 2005

quinta-feira, julho 21, 2005

Sabado de manhã

Sábado de manhã na perspectiva de um difícil exame de direito que se avizinha, dirijo-me a uma esplanada num pátio interior e disponho os livros em cima da mesa. Entretanto ocupo dez minutos do meu tempo a ralhar com uma adolescente de quinze anos que aqui apareceu convencida de ser uma grande mulher. Ouço um ruído electrónico. Recebo no telemovel a mensagem da fatalidade esperada. Ele morreu. Eram onze da manhã. Já não há nada a fazer. Era meu pai há quarenta e seis anos.

Há muitos anos atrás ao assistir aos coveiros a queimarem com cal a urna do pai do Carlos Alberto, li nas lágrimas dele a certeza de que um dia eu teria que passar por isso. Estar perante a inevitabilidade do esquife do meu pai. Não quero nem sou capaz agora de falar do que ele significou para mim ou até do conflito interior que é para mim vê-lo partir.

O facto é que estou hoje, como as lagrimas do Carlos Alberto me vaticinaram, perante a urna fria que contém a massa humana que foi, durante 73 anos, aquele que me deu o ser. Penso que este é um dos momentos mais dolorosos da vida de um homem.

No meio da dor que não sei, nem quero, controlar sou assaltado por pensamentos. Agora fica tudo entregue a mim. Desaparecido o meu avô e o meu pai, fico eu. Na hierarquia das gerações, a minha é a seguinte a partir. É, agora, a mim que compete dar corpo ao nome da família. Gostava de me ocupar mais nestes pensamentos que afastam a dor e caio em mim em mais uma catadupa de lágrimas que não consigo reter, mas que me aliviam. Ainda bem que há esta coisa do choro. Que bem que me fez chorar. E fico mais calmo.

Saio da esplanada, meto-me na mota e vou para casa meio atarantado sem saber o que hei-de fazer. Pelo caminho faço as asneiras de condução típicas de quem está perturbado. Quando acorrento a mota à guarda de ferro do passeio, sinto-me aliviado. Mota hoje não ! Entro em casa, sento-me no sofá esparramado a tentar encontrar um meio sereno para me sentir dono de mim outra vez.

Lembro-me que a minha irmã mais velha estará a tratar de toda a logística e sei que é minha obrigação ir ajudá-la. Tenho que lhe ir aliviar aquele peso penso.

Marco o número dela, oh! admirável mundo novo que me dá toda a gente todo o tempo na ponta dos meus dedos, e oiço os barulhos electrónicos próprios da comunicação a estabelecer-se. Depois ficamos os dois calados, durante um longo minuto, em cada ponta da comunicação no esforço fracassado de conter as lágrimas.
Lisboa, Julho de 2005

quarta-feira, julho 13, 2005

Acabar de novo

Acabou. Na verdade este é o momento do encontro comigo. Ela vai embora. Sei que fui eu que pus fim a tudo ... e depois ? "Batatas ... !" Nem sei bem o que é que preferia. Dantes sentia-me tão triste por ficar sozinho. Tão aflito mesmo. Já nem sei quando é isto mudou e ficar sozinho deixou de ser um drama. É verdade, ainda que sendo um lugar comum, que é dentro de uma relação que me sinto mais só. Por outro lado, estando só há sempre amigos à minha volta e moças casadoiras a quererem caçar-me, perdoem-me a soberba. Não percebo já porque é que as pessoas se juntam. As pessoas juntam-se por razões tão estranhas bolas ....
Lembro-me da história que a Felícia me leu - em “O Banquete” de Sócrates - que fala dos andrágoras (seriam andrágoras ?) que eram uns seres que tinham quatro braços e quatro pernas num total de oito membros e que se movimentavam rodando sobre esses oito membros. Os deuses teriam acabado por os dividir ao meio para que fossem menos poderosos o que deu origem à raça humana e fez com que cada um de nós ande desesperadamente à procura da sua metade. Ou, como diz o povo - que povo será este ? -, cada panela tem a sua tampa.
Eu sempre estive contra esta ideia de sermos apenas metade. Acho-me inteiro quase o tempo todo. Talvez não sejamos, o género humano, fadados para viver juntos. Talvez isso seja um grande erro e apenas sejamos capazes de nos cruzarmos na vida com mais ou menos intensidade. Ná ! Estaria a negar o amor ou a metê-lo em caixinhas. O amor deve ser uma coisa impossível de regrar. Eu acredito no amor. Não faço a menor ideia do que é que isto quer dizer, mas acredito no amor. Ao contrário de madame Bovary, não amo o amor mas confio que é o amor que nos apega à vida.
Então porque é que me sinto perdido no meio deste amor que perco sempre ? É verdade que a maior dificuldade que sinto é de conseguir chegar aos que amo. Agora fazer o quê ? Sei que há uma força maior que eu que mora cá dentro de mim que me vai colocar de novo na situação de amar. E .... o que será ser amado ? Rais parta isto tudo. Não é começar de novo que é difícil. Acabar de novo é que é.
Julho 2005

segunda-feira, julho 11, 2005

A inevitável Arara

Na verdade não me orgulho de nada. Penso noutros escribas, em José Gomes Ferreira por exemplo, que num momento de intimidade fraternal com a minha irmã mais velha, apelidei de «poeta fofinho». Os autores que me habituei a admirar, ao contrário de mim, habituaram-me a serem admiráveis. Percorro a pé a cidade de Lisboa, como a Rute me ensinou, e assisto à vida e às coisas que as pessoas são capazes de fazer com a vida. Parece-me que as pessoas não «fizeram propósito nenhum» e que a vida lhes foi correndo desta ou daquela maneira. O melhor possível, e o que cada um foi conseguindo dentro das circunstâncias. É nesse cadinho de acontecimentos que se sucedem sem controlo que a vida apresenta grande criatividade. O amor, os filhos, o trabalho, a casa e o «eu sei lá» de coisas com que as pessoas têm que lidar todos os dias, produz resultados que todos os dias me espantam.

Desço a rua da Estefânia a caminho da faculdade e vou-me deparando com essa criatividade dos lisboetas. Cada prédio é uma história, cada transeunte me faz parar a ouvir e a querer perceber. O que me fascina é essa liberdade com que as pessoas constroem as suas vidas. O resultado a que assisto na minha inocente, mas inquisidora, viagem rua abaixo é a harmonização de milhares de decisões, livres, sim livres, que estas pessoas todas tomaram.

Paro numa taberna para comer um gelado, acho que os gelados me fazem bem aos dentes vá-se lá saber porquê. Na taberna, dentro de uma gaiola ferrugenta forrada a sacos de supermercado até metade, está a inevitável arara. Esta é uma das grandes riquezas da cidade, sabemos sempre poder contar com uma arara em cada taberna. Demoro-me a receber o troco, aproveito e vou à retrete, por uma mija, e tento perceber o ambiente. Os homens discutem sobre o estabelecimento que ali havia há 25 anos atrás. Um deles é ligeiramente deficiente mental, a meus olhos, e os outros argumentam com ele como se nada fosse. É um dos homens que estão na taberna à tarde, como eu que compro um gelado. São pessoas de Lisboa à procura de serem felizes e a fazerem com a vida aquilo de que são capazes.

Eu não. Eu não me orgulho de nada. Eu tinha planos. Eu queria ser uma pessoa de bem, estava preocupado em orgulhar-me do que faço e em ser capaz de ter consciência do que faço. Eu dizia que era de esquerda porque ser de esquerda é um acto de amor. Afinal estou aqui a admirar um homem ligeiramente deficiente mental a fazer contas aos anos à sombra de uma arara. Eles, na taberna, que admiro, onde gosto de estar, são admiráveis e eu não.
Lisboa Julho de 2005

Uma questão de vida ou de morte

A saúde que nunca me faltou começa agora a preocupar-me. Sento-me à mesa para almoçar com a minha irmã mais velha - ela própria vítima, sem sequelas, de um avc há uns anos - e começamos a falar sobre os índices de gordura no sangue e sobre os exames que fizemos e de como é difícil manter a saúde. Há uns anos andava desesperado a julgar que tinha contraído uma doença sexualmente transmissível qualquer e que ia morrer dentro de meses. Esse era meramente um medo estatístico. É verdade que, fazendo contas, se cada um de nós tiver tido sexo com mais de três pessoas, o resultado é assustador. Se pegarmos no número três elevado a três (três ao cubo) obtemos o resultado assustador de 27. O que significa que, apenas num primeiro nível estivemos em risco de contagio com 27 pessoas. Bastará fazer esse número progredir dez vezes, porque essas 27 pessoas também terão estado em risco de contagio com outras tantas pessoas, e obteremos um número muito superior à população mundial. Eu, que já tive de certeza mais de quatro namoradas, devia estar num risco horrível, assintomático mas estatisticamente perigoso. Felizmente as análises sossegaram-me, não sem antes, nos oito dias que os resultados demoraram a chegar, me terem provocado a maior crise de ansiedade da vida. Posto isso e visto que afinal era saudável, assumi comigo próprio dois compromissos. Primeiro que haveria de viver a vida com sabor e gosto e segundo que iria cuidar do meu corpo com cuidados médicos adequados e a tempo. Essa coisa do tempo é o grande problema. Um homem não é lamechas. Um homem se lhe dói aqui ou ali sofre em silêncio e não vai a correr para o médico - ai ai ai senhor doutor que tem dói dói - Nada disso ! Um homem aguenta sempre sem se queixar, que não há paciência para esses mariconços que só sabem é chorar como as mulheres. Para ser sincero é esse o meu verdadeiro pensamento e vou sempre adiando as análises, a consulta ou o exame esquisito aguentando estoicamente mais um dia que pode ser que isto passe. Mas não passa, e com o passar dos anos o sintoma passa cada vez menos. E como, assim como assim, estou comprometido comigo a tratar qualquer sintoma que me apareça, lá entro nessa coisa dos médicos.
Tal como a educação, a saúde é feita por mulheres. Elas são recepcionistas, são enfermeiras, médicas, serventes, limpa-rabos, porteiras e a maior parte das utentes que, como já se sabe, estar doente não é coisa de homens. Isto é coisa de mulheres penso eu. Estou tramado. Por qualquer razão estranha, ao contrário da educação, estas nem sequer são bonitas porque assim sempre se distraía a vista. Fazer charme com estas mulheres também não resulta, além de ser um sacrifício, homem nenhum consegue ser charmoso meio despido com umas batas esquisitas e completamente debilitado num situação de inferioridade e dependência confrangedora. Esta é a verdadeira prova da masculinidade afinal. Aqui é que se vê a diferença entre os rapazes e os homens. Sentado na sala de espera, surpreendentemente agradável, atormentado pelas sevícias de que sou vítima para que me tratem, apercebo-me que é aqui que faz falta a barba rija e a verdadeira coragem. É, parece-me apropriado dizê-lo, uma questão de vida ou de morte. Ainda por cima com mulheres feias.
Maio 2005

terça-feira, julho 05, 2005

As minhas mãos

e as minhas mãos que não se calam por debaixo da tua saia

terça-feira, maio 24, 2005

Maminhas

cruzo-me com a julia no corredor - maminhas - penso com um pensamento guloso

Essa hora dos mágicos cansaços

São seis da tarde. É «essa hora dos mágicos cansaços» .... sentamo-nos num gesto largo e alarve na esplanada que disso só tem o nome. A bem dizer são duas mesas de alumínio barato e 6 cadeiras ali mesmo em cima do passeio a menos de 2 metros da estrada movimentadissima de autocarros e trânsito intenso. Bebemos imperiais como se fôssemos uma linha de montagem industrial e falamos «bavardamos» de coisa nenhuma. A Catarina dizia-me que as mulheres partilham entre si os segredos da intimidade com muito mais pormenores do que os homens que só falam da suas experiências em traços largos. Sendo que «comi-a toda !» é o mais longe que um homem é capaz de ir na pormenorização. Nós, um grupo estranho, íamos mandando bocas uns aos outros, numa deliciosa fruição desta coisa maravilhosa de o género humano ser dividido entre pessoas que fazem xixi de pé e pessoas que fazem xixi sentadas. Dos 16 aos 116 anos, todas as mulheres despertavam naquele pequeno grupo, único, vulgar, alarve, um comentário de conquista
e propriedade, sugerindo as coisas fantásticas que cada personagem que passava nos sugeria, fantasias de, fazer. Ele, Joaquim (jaquim), era o incontestado líder. Sempre capaz de uma boca mais javarda do que qualquer boca javarda que qualquer um de nós fosse capaz de dizer. Fazia uma sugestão badalhoca a cada cinco minutos. «O que é preciso é perdê-lo de vista» dizia. Sempre que podiamos roubavamos tempo ao resto das coisas para ir para ali. Naquele conforto de masculinidade que nem hoje entendo. Eu, o Dan, o Zangado e o Jaquim. Grupo mais ou menos espontâneo que ia mudando com a naturalidade com que se formava. Eramos todos esquisitos felizmente. Fumávamos charuto enquanto bebíamos na contemplação das nossas potentes motas estacionadas do outro lado da estrada barulhenta, exercitando a bestialidade. Sofisticados no entanto.

domingo, maio 22, 2005

A morte saíu à rua

Levanto-me, mais um dia de labuta, a vida continua. Ligo a música, a minha música, e oiço "a morte saiu à rua num dia assim" de josé afonso. Vou à janela e pelos olhos marejados de lágrimas, vejo a minha cidade, curvas avenidas ... sinto na coluna vertebral o vrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuuuuuuuummmmmm dos cavalos da minha mota. Sem palavras ...... cem palavras. Entre fúria e tristeza. A morte saiu à rua num dia assim .... não está muito calor nem muito frio ..... umas nuvens acolá a sombra de junho entre os prédios ainda consegue tornar agradável andar de mota. Desde terça-feira passada que vou apanhando murros no estômago sempre que penso nisto. Nas primeiras noites não dormi. Acordo de manhã e apanho a chapada da tristeza do irremediável. Olho para as minhas mãos a manipular os comandos da mota ... parecem-me elegantes esses movimentos .... lembro-me das mãos dele e da sua elegância. Em cada curva, em cada bocadinho de adrenalina que o trânsito faz, cada vez que penso no pneu da frente da minha mota que já devia ter sido trocado há tantos kms. À noite sento-me em frente à TV esparramado no sofá. À minha frente uma mancha de cor (os macacos na televisão) na rua o barulho ocasional de uma mota, passa-me, arrasa-me, rasga-me, magoa-me tanto. Pensei não me sentar mais na mota, desta vez a morte passou mesmo ao lado, passou mesmo aqui. Sento-me na mota achando que não o devo fazer. Mas qualquer coisa nestes meus pensamentos descoordenados me diz que andar de mota, ontem, hoje ... é a coisa certa a fazer. Olho para a minha mota com espanto, espantado com o meu blusão de cabedal com as minhas luvas. Não sei se sou daqui. Não percebo o que se passa. É só esta dor que não tem nome nem tamanho. Agora fazer o quê ? Como dizia o Fran nessa noite: "Estamos aqui à porta do escritório dele à espera que ele chegue, mas ele não chega .... " Jaime RorizLisboa, 18 de Junho de 2002

quinta-feira, maio 19, 2005

Mens sana in corpore sano

Tive o azar de ter um irmão pouco mais velho que eu. Precisamente um ano, seis meses, onze dias, vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. Um drama ! Nada do que eu fizesse se lhe comparava. Ele corria mais, tinha mais força, saltava mais alto, não tinha medo do escuro e, antes de mim, aprendeu a falar uma língua estrangeira. Não há ego que aguente isto. Vinguei-me lendo os livros todos lá de casa e tornando-me, aquilo que eu achava ser, uma pessoa mais cerebral do que física. Finalmente havia alguma coisa em que eu era melhor. Eu sabia mais. Isso é que era importante.

Depois …. depois a vida não faz outra coisa que não seja pregar-nos partidas. Amores e desamores, principalmente desamores, bebés, empregos, universidade. Um problema !

Eu costumo dizer que gosto da festa dos toiros – de touradas – mas que na verdade gosto muito mais das pessoas que contestam as touradas do que as que as frequentam. Pois …. aqueles tipo meio efeminados vestidos de lantejoulas a dançar à frente do touro, fazem um espectáculo bonito mas não bebem do meu whisky em minha casa que eu não me apetece privar com eles. Pelo contrário é muito mais vulgar ter amigos e estar perto de pessoas que defendem os animais e aquilo que um dia virão ser “os direitos dos animais” mas irrita-me um bocado alguma lamechice com que se aborda o tema e abomino os exageros com que, quer uma parte quer outra, abordam o tema.

O mesmo se passava com as pessoas do body building. Ninguém, no seu juízo perfeito, tem paciência para ouvir descrições sobre o tamanho do músculo e as técnicas de tonificação do corpo. Blargh ! Que nojo !! Sempre me pareceu que quem faz desporto ou tonificação muscular acaba por ser como os apreciadores das corridas de touros. Quer dizer, são uns fanáticos ! Só falam daquilo, não podem passar um dia sem fazer exercício físico e de repente levantam-se de ao pé de nós e dizem: - Vou correr ! – e desaparecem perante o olhar de espanto dos amigos.

Subo a escada que dá acesso às instalações de um cliente – uma escadinha na rua que dá acesso a vários prédios e de onde se espera sempre que apareça um assaltante. É tarde e corro um bocadinho. Quando entro no escritório estou a arfar e mal consigo falar. Não pode ser. Tenho que acabar com isto. Tenho 46 anos. Está na altura de ir tratar do corpo. Afinal ando há 40 anos a tratar da cabeça.

Uma rápida pesquisa na Internet não me ensina nada. Pergunto a colegas de trabalho e amigos e lá me mandam para os ginásios modernos que há na cidade que escolhi para viver.

Modernices penso eu. Parece que estou num beco sem saída e não tenho outro remédio senão experimentar. Encho o peito de ar para ganhar coragem e lá vou eu. Nem vale a pena descrever o périplo administrativo e tortuoso que é fazer seja o que for neste século XXI cheio de procedimentos enviezados.

O corpo. Eis-me aos 46 anos um ilustre desconhecido dessa coisa. Este corpo sou eu ? As minhas características como pessoa ? Raras vezes me detive a pensar sobre esse assunto. Tirando o sexo ao qual, vá-se lá saber porquê, dei sempre uma importância cerebral, com sucesso diga-se, nunca me detive muito tempo a pensar no meu corpo e desconhecia os prazeres que a sua fruição me podia proporcionar.

É verdade. Por artes que desconheço, os técnicos lá do ginásio convenceram-me a fazer mais do que natação - o meu projecto inicial – e lá me puseram a suar, dia sim dia não, naquelas coisas que parecem máquinas de tortura da inquisição.

Para meu grande espanto, saio do trabalho e, com uma convicção que não me é habitual, subo naquelas máquinas infernais, passo para lá do limite do cansaço físico que alguma vez na vida conheci, suo um suor que tem um cheiro que eu desconhecia, faço uns gestos estranhíssimos e sinto-me francamente bem !

Sinto-me francamente bem. Não posso deixar, mais uma vez de cerebralizar isto e reconheço toda a dimensão da frase que me ensinaram na infância.

Mens sana in corpore sano.

Lisboa, Maio de 2005

quinta-feira, maio 12, 2005

Namorados

É muito pertinente o que ela diz. Eu com 45 anos e sem ter tido na vida nenhuma relação estável. Apesar de tudo sinto-me bem comigo. Pergunto-me tantas vezes o que é que faz as pessoas juntarem-se. Ainda hoje de manhã ao acordar me perguntava isso.
Levantei-me, fiz café, tratei dos cães, que competiam por uma festinha minha, verifiquei os botões da roseira. Certifiquei-me que o cão continua a marcar território em cima do alecrim e que este já não vai vingar. Sorri-me para dentro.
Esta coisa de pessoas adultas partilharem intimidade é muito bom e depois ? Será que temos que ser namorados ?
Há uma mulher de quem sou amante há cinco anos. Pelo meio quer eu quer ela tivemos namorados(as) e acho que apesar disso o que nos une - a mim e a ela - é mais forte que os namorados(as) que tivemos.
É ? será ? serão só as hormonas ?
Cada dia percebo menos - Curiosamente isto, que deveria ser causa de angústia, é fonte de serenidade.

Maio de 2003

Ensaio sobre a solidão

"A solidão é um lugar ótimo para se visitar mas um sítio terrível para se viver". Existe por vezes, a convicção generalizada, que o simples enunciar de um problema, pode por si só, atenuar ou resolver os males que daí advenham.

Porque a solidão se tornou, por força da modernidade das sociedades, um mal tanto mais comum quanto maior for o aglomerado populacional, criou-se, incorrectamente, a idéia de que é necessário evitá-la a qualquer custo.
Poder-se-à dizer, que a atitude das pessoas perante a solidão ainda não chegou à idade adulta, pois que não foi ainda possível, a todos e a cada um, dosear a solidão e vivê-la com a intensidade necessária ou que merece.
Os imperativos sociais, de economia de recursos e de acesso generalizado aos bens e serviços, que a tecnologia hoje põe ao serviço da humanidade geram grandes fluxos de migração para as cidades e aglomerados populacionais, de dimensões muito além do socialmente desejável. Para que exista entreajuda, partilha, solidariedade, entrega, e até, inveja ódios e quezilas, em suma os valores e atitudes que são a negação do estar só, seria necessário criar raízes, pertencer a um grupo, um bairro, um local, ou ter um nome de família. Nas cidades, no entanto, tudo se perdeu, esbatido pela luta diária, esmagados que somos pelo peso do anonimato com que esta nos atordoa.
Da solidão física e intelectual do eremita, passámos, em passo curto, para a solidão de ideias e de ideais. A velocidade estonteante, a que se movem as correntes de opinião e criatividade, não permite que as pessoas se quedem na sua contemplação ou análise, e acabamos todos, ou quase todos, por ter uma enorme incapacidade prática de dar e de receber, de partilhar e de ouvir. Gera-se estanquecidade de opiniões, fecham-se as pessoas e até os grupos sociais.

Essa solidão, que coloca o indivíduo, no século da informação, paradoxal-mente cego surdo e mudo, é tão comum, alastrou tanto, que se torna por vezes mais fácil partilhá-la, do que partilhar os motivos que levaram as gentes até essa situação.
Surgem assim, para obviar à dor de estar só, taras e manias, tendências totalitárias e psicopatas, e pequenos monstros sociais que insistem em tudo experimentar, na vã tentativa de romper as membranas invisíveis da solidão, de finalmente experimentar sentir seja o que for, nem que seja dor ou auto-compaixão.
Resta concluir, para dar sentido ao início do texto, que a solidão, é o lugar do reencontro do homem consigo mesmo, da reconciliação e da redescoberta, e que é factor fundamental, no encontro dos outros e da capacidade de dar, é talvez, o único remédio para a cura da solidão.
março de 1997

Av de Roma duas da tarde

Levanto-me com o barulho da campainha da porta. Ana .... minha querida Ana. Tenho de ti a melhor opinião. Que raio de coisa esta de eu ter opinião. Beijos, frémito de beijos, levanto-te a saia com o meu melhor ar de malandro. Reparas que no meu lava-loiças há loiça por lavar ..... Tomas conta de mim ou dás um ar de mulher à minha casa. Mexo o rato do computador na minha secretária para te mostrar qualquer coisa e inclino-me, a minha respiração toca a zona onde acaba o teu pescoço começa o teu ombro. Os dois dentes da frente do teu sorriso estão separados, distantes essa característica dá-te um ar especial. Ana ... digo eu para mim enquanto venço o espaço que separa os meus lábios dos teus. "Há uma química" penso. Entre nós aconteceu .... queríamo-nos um ao outro. Continuo sem ser capaz de explicar o sexo. Para mim é sempre como quando tinha vinte anos. É um imperativo perceber o que se passou nessa manhã. Lavaste a minha loiça. Depois sentaste-te na minha cama e reclinaste-te para trás. Eu penso que me cobras o serviço de lavagem de loiça com sexo. Fizeste o teu "papel de mulher" - lavar a loiça - é hora de eu fazer o meu "papel de homem" - entrar dentro de ti. Recebo um telefonema da Cátia - saí ontem de madrugada de casa dela, depois de uma disfunção eréctil muito desagradável, direito para casa da Maria onde me compensei com bom e intenso sexo. "Que raio se passa comigo ?", penso enquanto vou ao jardim atender o telefonema da Cátia. Percebeste que estava a falar com uma mulher de quem gosto muito Ana .... tal como eu previra isso só aguçou o teu interesse sexual e despertou em mim uma fantasia estranha. Dispo-me, despes-te, despes-me, é verão e há muito calor lá fora no jardim. O cão ladra triste de não participar na festa - nas festas - Paro com o meu pénis erecto dentro de ti. "Mas porque paras ?" dizes tu a fingir irritada. Lembro-me de me sentir muito bem. E muito mal. Alguma coisa está errada nisto tudo. O telefone toca. É a Maria - é suposto eu namorar com a Maria mesmo tendo em conta o facto de acabar tudo com ela três ou quatro vezes por semana - quer almoçar comigo. O Pedro também vai, é preciso ir buscá-lo na mota. Saio de casa - de papinho cheio - meto-me no jipe para te ir levar a casa Ana. Volto para pôr perfume, a Maria reconheceria o forte odor a sexo que exalo. Deixo-te perto da escola da tua filha e volto para ir buscar a mota. Vou ali a cinco quarteiroes abaixo buscar o Pedro. O telemóvel toca - Maria - quer combinar mais não sei o quê. Toca de novo - Cátia - provavelmente, como eu, também não percebe o que se passou na noite anterior. De cada vez que o telefone toca, paro a mota tiro o capacete, atendo o telefone, seguro no capacete extra que levo debaixo do braço, para o Pedro, tiro as luvas e falo ao telefone tentando despachar a conversa. Está muito calor. Coloco as luvas, trago as botas de andar de mota, aperto um bocado o blusão de cabedal, ponho e afivelo o capacete. "Vamos lá buscar o Pedro". Que aflição xiça, que profusão de coisas me atravessam a cabeça. Penso que o castigo de ter três namoradas é ser enganado três vezes. Tenho no meu corpo a sensação, boa, do corpo da Ana enquanto penso nisto tudo. Paro no semáforo, suo por todos os poros. É Julho, são duas da tarde. Com o sinal verde para mim coloco-me confortavelmente na faixa do meio, vou devagar, tenho um carro à direita e outro à esquerda. Detrás de um dos carros aparece a senhora quase em passo de corrida. A metro e meio da minha mota que rola a 50 kms / hora. Grito. Grito. Grito. Sinto no meu corpo o corpo da senhora de 75 anos. Estou no chão com a mota em cima de mim. Levanto-me. Tiro o capacete. Vejo a senhora e uma poça de sangue. Caio no ombro de um automobilista que me acode. Choro.Lisboa, Julho de 2003

Arrumadora

"Lisboa tem os seus segredos à noite. Tem-nos de dia e à tardinha. Mas é de noite que os segredos são mágicos e são trágicos. Nesta labuta de manter a Internet a funcionar e de andar à volta dos computadores durante a noite sou, também, um dos personagens que habitam a noite de Lisboa. Ao lado das prostitutas e dos chulos, dos empregados do Galeto, dos bandos de africanos que se juntam à volta das roulottes de bifanas e caldo verde às quatro da manhã, dos apaixonados sem sono que calcorreiam a insónia nos passeios de calçada portuguesa da cidade, dos polícias desinteressados e dos guarda-nocturnos que já viram quase tudo, dos amantes dos bichos a salvarem um gatinho preso no motor de um carro às 3 da manhã depois da saída do cinema, dos que procuram a companhia no copo de cerveja do próximo bar, dos que desesperados da solidão dão tudo por ouvir a voz dos homens, dos amantes que prolongam mais um pouco a rua com medo de ir para casa não vá o encanto quebrar-se, daqueles que levados pela fome da luz e de um bife procuram um qualquer restaurante às 5 da manhã e, por fim, dos arrumadores de carros que aborrecem, ajudam, perturbam e nos enchem a cara da miséria que carregam. Pois foi numa dessas noites de trabalho, aborrecido dos computadores, cansado de trabalhar de noite e saudoso dos braços quentes de mulher que me esperariam em casa que saí à rua por um batido de iogurte com frutas e uma tosta mista ali mesmo no restaurante galeto a dois quarteirões do sítio onde trabalho. Chovia uma espécie de morrinha que não era bem água. Parecia um qualquer líquido viscoso que passava além dos casacos e falava do trágico que tem a noite. Começa o inverno e os sem abrigo gritam-me em silêncio o conforto que tenho em minha casa. A luz dos computadores que durante a noite vigio, deixa nos meus olhos de quarentão, uma impressão bruxuleante, a luz mortiça e cansada dos faróis velhos do meu carro velho, faz uma auréola dentro da chuva que cai. Desloco-me dois quarteirões de carro por medo da chuva e do mal que ela me grita, do incómodo que é saber que a noite está lá e incomoda. Meio entorpecido por estes pensamentos, a tentar perceber qual é o meu lugar na noite, como tento perceber qual é o meu lugar na vida. E sem vontade nenhuma de descer à terra, do inferno onde habito que se situa três metros acima do chão, vou passando semáforos e quarteirões na senda do restaurante que, penso, me confortará o estômago e o estado de espírito. Debaixo daquela chuvinha que não chega a sê-lo, mesmo à porta do restaurante a tentar estacionar carros em troca de uma moeda que lhe mitigue a miséria, vejo-a. Debaixo de um guarda-chuva gritantemente vermelho, parece que pretende personificar a noite toda e a decadência que fugir dos outros traz. Aquela personagem esguia, postada no meio da rua a mostrar-se qual gigante adamastor, qual mostrengo que está no fundo da noite a ensinar-me que o risco entre este meu lado do mundo e o lado onde ela vive é ténue e arriscado. Conheço-a há mais de um ano e a sua presença é sempre a minha aflição. Não lhe consigo adivinhar a idade. Rapariga no fundo dos olhos, mulher na aparência física, velha na história que o seu aspecto grita. Então tinha o cabelo comprido e lutava pelos melhores lugares a estacionar carros. Encontrava-a ao fim da tarde e parecia-me que vinha de longe e para longe. A sua mobilidade era notória. Agora vive dentro de um Renault 5 vermelho em frente ao restaurante que me acolhe a fome até às três da manhã como se arrastar-se mais de cem metros fosse uma tarefa impossível. Agora não sei se tem cabelo escondido sob um chapéu horrível. Arruma carros numa expressão sem vontade, sob uma qualquer história de drogas (?) ou de miséria precoce que não me é dado nem desejado entender. Que susto, que medo, que pavor. Corro atrás dela para lhe dar uma moeda. Ela já me conhece e sabe do meu olhar inquiridor e da certeza de uns trocos na algibeira das calças. Seremos cúmplices, somos personagens da noite de Lisboa."

Dezembro de 2000

É Coimbra, Coimbra B

Não é possível estar em Coimbra como se isso não fosse nada. Coimbra, sempre me deixará esta impressão. Olhamos a estação e o letreiro que diz “bilheteira” como se aquilo fosse mesmo uma bilheteira. Em Coimbra todas as coisas são um bocadinho mais do que querem parecer ser. Bilheteira .... humpf ! Ali compram-se viagens sim .. não só as viagens – Lisboa Sta Apolónia à Porto Campanhã – de comboio, mas ... as outras ... as de viajar de corpo inteiro. Sonhos braços e abraços é o que é ......

Doutores, engenheiros, deixaram aqui as suas esperanças e os seus sorrisos, perderam aqui a inocência e a paciência. Há nestas coisas todas muito mais do que vos parece. Olho à minha volta e nada me parece ser assim. Subo dez metros acima do chão e vejo as coisas por detrás da minha imaginação e da minha memória. COIMBRA ! “Todo o cais é uma saudade de pedra” Toda a estação de comboios é uma saudade de ferro. E em Coimbra .... bem em Coimbra. Em Coimbra deixei perdido o meu coração. Corro as calçadas e lembro-me do Eça – ou do que Eça escreveu sobre Coimbra. Certamente é neste momento ... em que olho Coimbra daqui de cima – da minha imaginação – que Coimbra tem mais verdade. As raparigas andam de um lado para o outro com os seus rabos bonitos. Rabos de Coimbra que se há-de dizer, bolas ! Umas olham para mim ... eu penso que me sabia bem uma companhia nesta espera aborrecida de comboios atrasados. Sorrio desta fantasia.

Parece que caiu uma catenária em Oliveira do Bairro e que o comboio está por lá retido à míngua de electricidade coitadito .... O vendedor de bilhetes vitupera ódio como se fosse um qualquer primeiro ministro “Estou farto de engenheiros e mais o que eles dizem” as pessoas que vão apanhar um comboio para sair de coimbra têm um ar cansado.

O que é que vê quem vai a sair de Coimbra .... Lucas Pires .... no tempo em que era chefe do departamento de direito na universidade autónoma veio aqui morrer. Como se fora um paquiderme à procura de um sítio para morrer. A morte quis surprêende-lo em Aveiras de Cima. Mas o lente não se deixou apanhar assim e lá acabou por conseguir vir aqui acabar os seus dias.

Coisa estranha isto tudo. O que é que cada uma destas pessoas aqui à volta vê que eu não vejo ? De certeza que eu vejo muitas coisas diferentes das que eles vêm. Não que eu veja melhor, mas porque povoo de recordações as minhas visões, porque a minha fantasia enche os espaços vazios entre as recordações e o tempo que vivo. E como uma matriz, a minha imaginação cola por cima os factos que faltam para que isto tenha graça.

Curiosamente é de vida que falo, ou pelo menos o que sinto é vida a fluir à minha volta. Mesmo a morte do meu professor .... é vida, que a morte é uma parte da vida ... a parte final ... mas uma parte.

Coimbra é sempre um segmento de recta .... um intersecção na vida das pessoas. Chega-se a Coimbra com um passado. Aqui se ama .... aqui se sonha .... aqui se aprende o que é mesmo viver ... e estes três ou quatro anos acabam por produzir mais recordações que os vinte seguintes. Depois saímos de Coimbra e continuamos a viver. Ou antes, começamos. A mim, que não estudei em Coimbra – apenas amei – trago sempre este bocadinho. Coimbra é uma (af)lição como eram as (af)lições de química do meu tempo de liceu.

Fica-me esta impressão .... o olhar sobre a cidade. Aqui recebi .... uma, duas, três paixões intensas .... povoámos de amor e de cheiros as pensões e os hóteis desta cidade e os sétimos andares da av. Calouste Gulbenkian mau grado o meu medo de elevadores. Aqui quando saímos do largo onde está a cabra e o cabral olhamos e está num sótão “meio granítico” a imagem romântica de um rapaz a ler, supostamente a estudar e que um dia encontraremos num qualquer tribunal a dirimir causas com aquele olhar da “mágica senhora das paixões” lá muito por detrás de “nos termos e para os efeitos previstos no nº2 do artº 311º do código civil.

As raparigas de capas negras – com os seus rabos redondos e rijos de raparigas novas – capas negras a ardejar, movem-se, impacientam-se na espera dolorosa do comboio que não chega. Que futuros sonham aqueles olhares vivos ? Que esperanças estão depositadas naqueles penduricalhos que estão na capa ? Que namorado terá feito aquele rasgão no manto que a cobre do frio deste inverno que se anuncia bruto ?

Por detrás do lugar comum, por detrás deste jeito estereotipado em que os jovens, na sua néscia fuga ao banal, tão desajeitadamente caem. Por detrás de tudo isso está uma promessa de encontro, uma promessa de memória, um bocadinho de ..... daquela pessoa – mau grado o rabo redondo que me produz um sorriso alarve – é mais um bocadinho de coisa a tornar ridicula a placa que diz “bilheteira” como se isso fosse importante, como se isso fosse verdade ou como se alguém acreditasse que ali apenas – ou até mesmo – se vendem bilhetes de comboio.

Todo o cais de comboios é uma saudade de ferro. Por Coimbra passa-se a caminho do Porto. Eu venho aqui trabalhar nos computadores de uma empresa de camiões que leva mercadorias para a Europa e para o mundo. Estão sempre de passagem. Eu, por outro lado e mais aqueles que tornaram diferente, intenso e possante aquele letreiro que quer, mas não consegue, dizer bilheteira, eu, e eles damos coisas a coimbra todas as vezes que aqui passamos.

Como citou na TSF o grande jornalista Fernando Alves – “o que é que vê o faroleiro quando olha o mar ?“ O que é que vê o pai de uma tricama quando passa por Coimbra ? O que é que eu vejo nesta cidade que me deixa assim, fabricante de sonhos e fantasias com doses industriais de memória e realidade.

É este desejo que tenho de viver intensamente. É este gosto pela intensidade das coisas. É esta paixão pelas cidades que me faz sempre voltar aqui.

Ando às voltas ..... a estação é pequena ... chove ... há um monte de gelo em cima dos carris. Só há bancos na rua. Está frio. Encosto-me num canto onde não haja correntes de ar. Tento dormir enconstado ao balcão da famosa bilheteira. Dirijo-me ao café e travo este diálogo fabuloso com a fabulosamente linda rapariga que atrás do balcão trabalha para me mitigar a fome:

- Dê-me ... uma sandes mística e .... um trinaranjus de maçã se faz favor – tentando o meu sotaque mais sedutor já liberto pela certeza do insucesso

- Joi – diz ela baralhando-me
- ? – numa surda interrogação

- Já provou Joi ? Alguma vez provou ?

sorrio ...

- Este pelo menos ainda sabe a maçã – e antes que eu pudesse dizer não, tenho o sumo aberto e estou a bebê-lo

ainda esboço um ... – confesso que sabe .... – mas ela já não me ouve

Passo os 20 minutos seguintes a admirar extasiado o fantástico movimento do corpo daquela rapariga cujos movimentos que executa para servir os clientes são uma autêntica dança atrás do balcão. Ela sabe que a estou a olhar babado. E lá se mexe e remexe para meu gáudio.

É coimbra ....... (Coimbra B)

Alfa Pendular Novembro de 2002


Lisboa Domingo

Depois da angústia vem a tristeza a pessoa olha-se ao espelho e não gosta do que vê.

No domingo saí à rua e não havia carros nem trânsito. As ruas de Lisboa estavam vazias e no caminho entre a casa e o trabalho percorri as avenidas novas com as suas árvores de folha caduca no meio. Era ao fim da tarde e aquela luz, marcada pela ausência das montras coloridas por ser domingo, dava um tom diferente e especial à cidade. O chão pejado das folhas dos plátanos e de choupos amarelecia. As pessoas eram pouquíssimas e os jovens eram raros, que a cidade já não tem gente nova. Eu estivera a trabalhar com computadores e não tinha ainda falado com ninguém naquele domingo. Lisboa falava comigo e falava-me de melancolia. A cidade branca que naquele dia não pulsava e como uma amante cansada repousava com um ar grato e melancólico. Todo aquele estado de espirito se apoderou de mim e a chuva miudinha passou-se-me para dentro num processo de osmose, eu que nunca uso guarda chuva e costumo dizer -é apenas água. No jardim que dá abrigo ao prédio onde vivo num desses lindíssimos jardins que ornam as praças desta cidade parei o carro entrei em casa e na grande janela que dá para o jardim de minha casa o tomateiro arbóreo frutificava ! De repente o universo fez sentido aquela árvore rara raríssima despontava em festa de tomates vermelhos a três metros de altura. Aquele domingo chuvoso, cuja luz ia morrendo, falava-me agora de todos os seus mistérios sentei-me no baloiço do meu jardim enquanto chorava baixinho à chuva e pareceu-me que aquele momento tinha toda a verdade que eu alguma vez poderia perceber.

A Catarina escreveu um livro

A minha amiga Catarina escreveu um livro. Sei-o há mais de meia dezena de anos. Já tinha tentado várias vezes comprá-lo mas qualquer coisa corria sempre mal no envio pelo correio, no pagamento ou na editora.

Desta vez, talvez porque eu estava determinado a encontrar-me, a coisa correu bem e o livro lá chegou às minhas mãos no meio de muito cartão e alguns catálogos anexos. Chegou a meio da minha manhã de trabalho. Forrei-o, não fossem os meus colegas perceber que não estava a trabalhar e roubei à entidade patronal uns minutos aqui e ali para o começar a ler.

À hora de almoço fui ter com a minha namorada e falámos com tristeza de não sermos capazes de fazer o amor durar. Depois de almoço senti uma atracção que me fascinava e me impelia a ler aquele livro.

A Catarina era uma criança quando a conheci e eu nem sequer estava perto dela quando cresceu. Eu e a irmã da Catarina somos bons amigos e pela vida fora tenho ouvido falar dela com o carinho com que as irmãs mais velhas falam das irmãs mais novas.

Os factos fantasiosos de que o livro, e a sua autora, falam ter-se-iam passado, em locais que frequentei, com uma geração dos irmãos mais novos dos meus amigos. Não é, neste texto, muito importante referir de que é que o livro fala. Fala de gente boa de gente de quem eu gosto.

Ao fim do dia sento-me nos bancos da faculdade e leio sofregamente o que me falta ler do livro da Catarina. Felizmente sou interrompido pelo telemóvel, o que dá, a mim próprio, um excelente motivo para ir acabar a leitura no bar da universidade. Num ápice, leio o livro até ao fim. Tal como esperava, escondo a cara nas mãos e choro. Choro, choro, choro. Que bem que me fez chorar. Choro de saudades de mim. De tantas vezes que me afasto de mim.

O livro é uma viagem no tempo. Afinal eu era para ser feliz e não fui. Que raio de coisas eu investi, que raio andei eu “à espera que me abrissem a porta à frente de uma parede sem porta”. Olho para o investimento que fiz nas coisas, nas pessoas, em tanto tudo que resultou em tanto nada. Tantos dias de felicidade perdidos. Sinto-me como um menino de doze anos que quer uma bicicleta nova, mas hoje! Mas agora! Cheio de ansiedade e angústia. Eu quero ser eu. Quero ser eu hoje. Quero ser eu agora. Sabe-se lá que raio de coisa quer isto dizer. Sei lá eu o que é isto que eu quero. É uma força que me empurra por dentro. Um desejo que toma conta de mim. Quero ser eu agora, hoje!

Sempre que me olho no espelho fico espantado de não ver lá um menino. Mas quem raio é este homem de 46 anos que me olha no espelho? Eu sou um menino inocente, não sei nada sobre a vida e estou desesperado à procura da minha primeira namorada. Quero saber nadar, andar de bicicleta, saltar mais alto, decorar textos, ter boas notas, ser mais hábil, ver o meu corpo crescer e tornar-se másculo. Quero que oiçam a minha voz e que tenham a minha opinião em conta e que riam das minhas piadas. Não quero este passado pesado de tantos casamentos, de namoradas e amantes de carros e empregos de responsabilidades e falhanços... de traições. Não quero o encargo de cuidar dos meus pais envelhecidos. Quero sentar-me num cantinho e chorar, chorar, chorar.

Parece-me que deitei tudo fora.

Ah! Mas a poesia que tem a vida.

Ah! olhar a lua deitado no pátio de cimento da nossa casa da praia e descobrir as constelações.

Vá lá... olhem para mim e vejam como eu sou um menino carinhoso, como só quero carinhos e beijinhos. Como dizia uma sobrinha há uns anos “eu não quero fazer parte do mundo dos adultos”.

Estou sentado na sala de aulas da minha faculdade, com um ar congestionado, mal disfarçado, por causa de chorar. Sentei-me cá atrás para ninguém dar por mim. Os meus colegas desviam o olhar gentilmente sem perceberem. Estou constrangido. Depois desta bomba emocional que foi ler o livro da Catarina, fiquei confuso e baralhado. Não sei qual é o caminho. Não sei o que é que vou fazer. Estou perdido como quem vai mudar de caminho. Não compreendo nada disto. Nem a mim nem aos outros. Sobretudo a mim. Sobretudo aos outros.

Algumas vezes que me senti assim, optei por dormir com as raparigas todas da minha rua. Se não me fizesse mais nada fazia-me um bem tremendo ao amor próprio. Sobre isso eu costumava dizer “é uma coisa profunda, é um grande espaço de entrega”. Talvez seja só eu a consumir o tempo colocando opacidade entre o homem que sou e o menino que me sinto.

Quando me sinto como hoje, os outros são todos marcianos. Não são inteligentes, nem sensíveis nem assumem o que sentem. Quando me sinto assim só há quatro ou cinco pessoas de bem no mundo.

Lembro-me do tanto, tanto que eu gostava da minha irmã mais velha e de como deixei que a minha mãe estragasse tudo. Estou a pairar – a boiar – num cadinho de emoções que não entendo. Não dou nenhum crédito às minhas certezas e não sei o que hei-de sentir.

Alguma coisa – anos e anos a tentar tornar-me um homenzinho – me diz que tenho que cair em mim e que assumir as minhas responsabilidades de adulto. Algo me diz que devo ser uma pessoa séria e disciplinada, que devo lutar, sem baixar os braços, por aquilo que está certo fazer-se. Não posso, não sei, não quero! Talvez com este episódio eu tenha aprendido alguma coisa. Aprendi talvez que não sei nada. Nem o que quero nem o que hei-de fazer, nem do que é que gosto ou de quem gosto.

Todas as coisas que faço me parecem hoje apenas formas de fugir do menino que julgo estar do outro lado do espelho e que afinal é um homem de 46 anos de quem nem sequer gosto especialmente.

Maio 2005

Manual

Release II do Manual correspondente à instalação do service Pack 2a


Esta máquina de café corre o SO Windows 4cup ™ , assim qualquer problema resolve-se da seguinte forma:

1 – Reiniciar o serviço (abrir e fechar a gaveta das borras)
2 – Shutdown ao serviço (girar a chave do lado direito)
3 – Hardboot (Botão na traseira do chassis)
4 – Apagar os Logs (borras)[só disponível no service pack 2a]

Se nada disto resultar é porque é um problema já conhecido da MicroSoft mas que esta ainda não conseguiu resolver.
Maio de 2005

Ontem foi o dia em que cremaram

Ontem foi o dia em que cremaram a minha amiga Mª João. Não sei muito bem o que hei-de pensar sobre o assunto. Ela vivia sozinha, e num sábado, fim de Outubro, resolveu atirar-se do oitavo andar. Tinha 43 anos se não me engano. Era uma rapariga da minha criação. Durante a cerimónia de cremação, querendo fugir à dor que me perturbava, lembrei-me dos momentos em que, e para usar as palavras da religiosa que presidiu a cerimónia fúnebre, a vida dela tocou a minha. Nunca tivemos uma grande intimidade e nem sequer nos dávamos de uma forma regular. A primeira vez que a vi, tinha ela 12 anos, no baptizado de uma das minhas sobrinhas, a mãe estava a ralhar-lhe - aos gritos e em frente a toda a gente - porque o vestido de alças e lacinhos estava muito para baixo deixando ver ou adivinhar aquilo que viriam a ser maminhas. Depois pelos anos fora fui-a encontrando. A maior parte das vezes em viagens no comboio tranvias que partilhávamos. Era uma delícia ouvir aquela rapariga discorrer sobre as coisas. Eu fico muito seduzido pela vivacidade intelectual e a Mª João tinha esse avanço. Conversar com ela sobre qualquer assunto era uma delícia. O cérebro é um "músculo" admirável e exercitá-lo é, para mim, fascinante. Foi uma das primeiras pessoas a quem ouvi dizer que fazia psicanálise e algumas vezes chegámos, eu que também fiz psicanálise, a partilhar algumas experiências. Lembro-me de a ouvir falar, com a severidade extrema das pessoas que fizeram análise, dos pais e de como a experiência de ser educada por eles tinha sido traumatizante. Uma das vezes que a encontrei era ela professora numa escola na qual eu me preparava para fazer exame de filosofia de entrada na faculdade de direito. Mais uma vez a Maria João estava contra tudo e contra todos, contra a hegemonia dos filósofos alemães, lembrando os seus alunos que as coisas podiam ser sempre vistas de uma outra forma. Com o passar dos anos fui sabendo coisas dela. O seu percurso académico, para qualquer ouvinte atento, falava por si nesta pequeníssima Lisboa. Fez mestrado e doutoramento e com a coragem que lhe era habitual fê-lo envolvida em conflitozinhos e revelando a coragem de quem sabe pensar. Uma pequena pesquisa na internet encontrou dezenas de referências à sua vida académica. Era professora no Instituto Superior de psicologia aplicada. Era uma mulher brilhante. Pequenina .... com uma voz um bocadinho sopinha de massa. Tinha um ar delicioso. Sempre tive pena de não ter aprofundado este relacionamento. Há pouco tempo tinha falado com o tio dela por quem mandei um abraço e a expressão do desejo de falar com ela. A vida troca-nos sempre as voltas. Fiquei a saber que no dia em que pôs termo à vida teria convidado o pai para jantar em sua casa. Ao que parece o pai ao chegar ao bairro encontrou ambulâncias, borburinho e a própria filha, já sem vida, estatelada no chão. Naquele funeral - cremação - vi toda uma história de mulheres. Nem sei bem explicar isto. O número .... entre os assistentes quase só se viam mulheres. Estava lá a minha sobrinha em cujo baptizado conheci a Maria João. A mãe - pobre mulher - já divorciada parecia tão só no desespero de estar defronte do esquife da filha. O facto de a cerimónia fúnebre ter sido presidida por uma mulher. Fez-me lembrar "a casa de Bernarda Alba" ou qualquer outra coisa assim de Lorca ou Storni. A morte por ser brutal tem alguma sensualidade. Aquelas mulheres todas no funeral de uma mulher que abandonou a vida no seu auge. Aquela mãe. Tantas mulheres de negro. Não sei se sou capaz de explicar e até tenho vergonha de o dizer. Tudo aquilo brotava sensualidade. Sei que os motivos que levaram aquela rapariga a voar para a morte me são completamente desconhecidos mas neste episódio escreveu-se, certamente, uma das grandes lições da minha vida.
Novembro de 2004

O mais dificil

O mais difícil é o amor. Cansa-me mais tê-lo do que não o ter. Saio de casa e atravesso a rua. Há um cinema com uma livraria debaixo do chão. É ali, no meio dos livros, que gosto de estar. Marco ali encontros. Faz-me bem sorrir entre os livros. Depois passeio-me pelo bairro. Passeio no meio das vendedeiras de flores, nabiças e feijoca. Elas metem-se comigo e eu faço as minhas rábulas.
Rábula do estado do tempo. Que vai à cena num café chamado “O Bulhão” em Lisboa na rua Bulhão Pato, nº 8.
“O raio do tempo está maluco” digo eu. “É como se vê ...... não se pode contar com ele” responde-me a estranha mulher que vende cafés neste sítio e que conduz pessoas nas salas do cinema ali em frente.
“A culpa é do governo” digo entoando o meu tom mais sonante. “Pois, durante os governos do Cavaco entre 87 e 95 nunca choveu” começo eu ... já tendo a certeza de ter prendido a atenção de todo o café. “Portugal vivia uma seca terrível e o Alentejo, por mor da seca, foi declarado zona de catástrofe.” Meço no olhar das pessoas o divertimento e o espanto, e animado continuo “Ora, quando em Outubro de 95 o Guterres foi eleito herdou um país seco. Mas logo logo em Novembro já havia cheias no Alentejo - coisa raríssima” A mulher do café, estranha mas finíssima, sorri-me e diz que já não se lembra bem. “Mas é verdade digo eu !” e parto para a conclusão. “Agora que temos este primeiro ministro maluco, o tempo está maluco e temos de manhã inverno e à tarde verão” - “Ninguém me convence já que a culpa do tempo estar assim não é do governo” Saio pela boca de cena que é como quem diz do café.
Rio-me e atiro-me à árdua tarefa de atar os arreios da minha mota. Sempre me pareceu um ritual muito parecido ao do cavaleiro. Retiro a grande corrente com que ato a mota a um poste de iluminação pública. Depois enrolo a corrente ao poste onde ficará o dia todo. Coloco o capacete no guiador, alçando a perna à cavaleiro, sento-me no selim. Retiro o capacete do guiador, de lá de dentro tiro as luvas e o chaveiro da mota. Coloco o capacete e aperto a fivela. Coloco a chave na ignição e calço as luvas.
Sorrio de dentro do capacete às pessoas que estão na esplanada. Lá vou eu trabalhar.

Maio de 2005

Fecho os olhos

Fecho os olhos e não te vejo. Sinto-me só outra vez. Sou um dos versos do poema “porque foi minha boca embriagar da tua boca” Penso, já derrotado e a morder o pó do chão, que se olhar para trás vejo sempre mulheres. Não sei o que vejo em frente. Gostava de me orgulhar do que vejo. Vou ter que esperar algum tempo.

Desço à rua e cruzo-me com o porteiro. “Sr. Álvaro” digo com um sorriso de entrega. Gostava de pensar que me entrego nestes sorrisos. “Bom dia” responde-me com olhinhos de 20 anos na sua pele de 90. “Eu podia ser dono disto tudo mas fui parvo”. Encosto-me à parede à espera da história. “Fui aprendiz, fui chefe e depois fui tudo. Fui encarregado geral do estaleiro.” Olho-o a pedir que continue e vou dizendo monossílabos de incentivo. “Vinham aqui buscar-me a todas as horas do dia e da noite. Era engenheiros e mais engenheiros mas só eu é que sabia. Era de mim que precisavam. Uma vez ....” pára para refazer mentalmente a história “Uma vez vieram aqui buscar-me de madrugada porque era preciso pôr um navio à água e ninguém era capaz. Aquilo tinha uma rampa como daqui àquele candeeiro ... Qual ! Como daqui àquele banco ali no jardim ... Era preciso cortar as amarras de maneira que não caísse. Eu só dizia. Cortar este. Cortar aquele. Depois mais ali.” Vai fazendo uma dança como se estivesse mesmo no estaleiro. Os seus olhos já não brilham – ardem. O Sr. Álvaro está algures no Tejo a colocar um navio na água. “Depois” continua “depois o barco seguia pela rampa direitinho como um fuso. E era paaaaaalmas !!!!” Ficamos os dois calados a ver o barco entrar na água e a fazer um splash pacificador e os engenheiros todos e baterem palmas ao encarregado geral. Por fim o Sr. Álvaro conclui. “Pois é. Eu podia ser dono disto tudo mas fui parvo. Vá ...... vá lá trabalhar homem” Eu vou.

À noite olho para a rua da varanda virada a nascente da minha casa. Os grupos de jovens falam lá em baixo. Oiço-os conversar e penso nas minhas filhas. Falam dos pais a maior parte do tempo enquanto fumam ganzas. Pergunto-me o que será mais saudável, se aquela conversinha cheia de intimidades daqueles jovens, mau grado as ganzas que me fazem tanto medo, ou as noites de discoteca onde ninguém fala porque não pode ou porque não tem nada para dizer.

Como se escreve um livro

Dantes, quando me sentava num café sozinho ou à espera de alguém, pegava em caneta e papel e escrevia. Escrevia-te e escrevia-me. Depois o papel amarelecia nos meus bolsos ou perdia-se, para ser mais tarde encontrado, dentro do livro que estivesse a ler. Escrevi mais de cem livros assim. Versejei e romanceei tratados que nunca compilei e que estão agora, mortos, no céu dos papéis escritos em cafés e restaurantes. Tais escritos, fáceis e com a intenção de preencher o aborrecimento de estar naquele sítio a solo, estavam ricos do ambiente do momento e são fotografias, caso conseguisse compilá-los - do homem ou do rapaz que eu era. De vulgares passam a preciosos que a solidão, ainda que por um momento, leva à entrega.

Numa mesa ao lado uma mulher bonita também escreve .... no telemóvel. Sorri enquanto escreve. Mensagens de amor a um amante ? Promessas de encontro a um pretendente ? Lembra-me Camões:

"e afora este mudar-se cada dia outra mudança faz de mor espanto. Que não se muda já como soía"

Oeiras, 14 de Setembro de 2001.

Olá Rute

Às vezes lamento as mulheres que não tive. Outras vezes acho que tive de mais. E quando caio em mim sei que nunca tive ninguém. Na minha vida passaram pessoas umas com mais outras com menos intensidade. Sem lamechices que levem a dizer que as pessoas não se possuem, eu acho mesmo que os homens e as mulheres se comem uns aos outros e que um engate às vezes só tem de bom o ter-nos deixado o ego em cima. "Helas, c'est la vie !"

Tendo dito isto também é verdade que sou um homem de paixões e de intensidade em tudo o que faço. A dificuldade que encontro nos relacionamentos é porque (elas) não suportam todo o empenhamento que ponho na relação - quer seja fugaz, quer seja duradoura - sabemos - eu sei - que a minha relação mais duradoura foi com "a outra". Por fim julgo que, sempre que me cruzei na intimidade com gente, possui e fui possuído. Não me parece que valha a pena fazer doutra maneira.

Mas tudo isto levava-me a comentar o artigo do chinês laureado com o Prémio Nobel. Na verdade lamento as mulheres que não tive. Por vezes fujo de me cruzar com as mulheres que queria ter. É este meu envolvimento que depois me consome.

Como eu dizia, um destes dias, cada vez acho mais que sou um inocente nestas coisas do amor, do sexo, da intimidade. Uma vez estava na biblioteca da minha faculdade e aconteceu uma daquelas coisas de filme com uma cabrita liiinda que estava à minha frente de volta dos livros de direito. Felizmente tinha mesmo exame naquele dia e fui obrigado a fugir.

Passados estes anos ainda hoje lamento "não a ter tido". Mas a força que me impeliu para ela era quase igual à que me fazia fugir. Venceu o exame de que já nem me recordo. Recordo a cabrita
Agosto de 2004

Capítulo I

Sentado no chão frente à estação dos correios em Roma, pensava como raio tudo aquilo me tinha acontecido. Num tempo que me pareceu muito distante, lembrava-me de Lisboa.

Foi a cidade que eu escolhi para morar, foi o bairro que escolhi para morar, fui fazendo o "fine tunning" - expressão de informático que significa precisão da afinação – do sítio em que queria morar até que encontrei aquele sítio. Foi ali, no meio das flores com que povoei as minhas varandas viradas a nascente e a poente, que me fui encontrando comigo próprio.

Saio de casa na mota. "o raio dos domingos à tarde são maus para quem vive sozinho" penso. A minha namorada deu-me a banhada e não jantou comigo. São duas da manhã e corro para a cidade. "como eu gosto disto" murmuro para dentro do capacete. Cada momento que passa dá-me um personagem novo. Dirijo-me ao Hot Club para beberricar uma cerveja e ouvir o que adivinho seja um momento saboroso de jazz.

Passo junto ao parque mayer ex-futuro-defunto lugar de peças de teatro pirosas, cruzo-me com políticos e dirigentes de futebol atracados em mocinhas com idade de serem minhas filhas. Chego ao Hot e está fechado. Que raio. Será que já não conheço nenhum sítio, que não seja uma casa de putas, onde um homem possa ir sozinho beberricar uma cerveja a um domingo à noite ... ?! Dou meia volta pela praça da alegria.

Lembro-me das coisas todos que se me passaram neste lugar. Passo em frente à esquadra da polícia, desço um bocadinho da avenida da liberdade e certifico-me que o Ritz Club está fechado. Volto a passar em frente à esquadra da polícia e penso que já só me resta "a noite pura e dura" que não gosto de frequentar e onde a probabilidade de me vandalizarem a mota é demasiada.

Lembro-me do Sal ter visitado a Célia numa noite assim e de ela o ter comido. O certo é que nunca mais ouvi falar dele. Saiu do Porto para visitar a Célia e foi a último acto público conhecido do pobre rapaz. Lembro-me das historias do Al Berto que a mesma Célia me contou. "Uma mulher que matava todos os homens que engatava nos bares à noite sem ninguém saber porquê" Deve ter sido isso que a Célia fez ao Sal.

Toda a cidade tem um ror de histórias para mim. Naquela esquina despedi-me da Manuela antes de ela partir "para sempre" para os Estados Unidos. Debaixo daquela árvore, que o João César Monteiro celebrizou, acabei a minha relação com a Maria (uma noite às três da madrugada) exactamente dois anos depois de ter começado e quase no mesmo sítio curiosamente.

Estou inquieto. Passo junto à minha universidade ansioso pelo dia em que as aulas recomecem. É verão. Não há nada tão importante como o amor penso. O amor é a coisa mais importante da vida. Parece-me uma prisão. A felicidade deveria depender de todas as coisas e poderia ser possível mesmo que um dos factores não concorresse. A pessoa poderia decidir por ter profissão e casa mas não ter família e ser feliz na mesma, ou ter família e trabalho mas não ter casa e ser feliz na mesma.

O mais difícil é o amor. Cansa-me mais tê-lo do que não o ter. Saio de casa e atravesso a rua. Há um cinema com uma livraria debaixo do chão. É ali, no meio dos livros, que gosto de estar. Marco ali encontros. Faz-me bem sorrir entre os livros. Depois passeio-me pelo bairro. Passeio no meio das vendedeiras de flores, nabiças e feijoca. Elas metem-se comigo e eu faço as minhas rábulas.

Olho pela janela e posso imaginar qualquer coisa. Esta é a minha sala da Rua Bulhão Pato em Lisboa. Na minha mesa de trezentos anos olho para a rua e vejo apenas a fachada dos prédios. Um dia sentaste-te à minha mesa, meu amor luso francês, olhando esta paisagem de betão e tijolo e lembraste-me disso. Este podia ser qualquer lugar no mundo.

Sentados à mesa olhamos a rua e a paisagem habitual não faz sentido. Daqui deste segundo andar não se vê a rua. Os prédios são iguais em todo o mundo. Aqui é a minha sala, a sala da minha casa. A única coisa que não existe em mais nenhum lugar – ou pelo menos igual - é esta mesa com trezentos anos e a lembrança do teu sorriso com esses teus olhos verdes como dois oceanos onde me afogo. Há flores na varanda, muitas flores, e pela janela, rasgada de parede a parede – traço de arquitecto – vê-se uma miríade de cor. Uma festa de flores.

Sentamo-nos, frente à refeição que com requinte e dedicação que confeccionei, inspirado pela tua presença, e olhamos ...... Entre nós e as flores estão trezentos anos de manchas em cima desta mesa, trezentos anos de riscos, lágrimas, suor, bebidas, risos, sim muitos risos certamente. Eu sorrio para ti enquanto pego na tua mão e dizemos. Sim, podia ser Paris, podia ser outro sítio qualquer. É uma história que escrevemos, senhores do nosso destino, sobre uma mesa antiquíssima, que já assistiu a choros, risos e lamentos, braços e abraços e contratos e pagamentos.

Com cera de abelha atento a cada pormenor, cuidadosamente puxo o lustro à mesa. Demoro-me na história que conta. Encontro algumas marcas que conheço e procuro uma solução para as que desconheço que são a maior parte. Vou colocando mais cera e puxando o lustro. O cheiro da cera de abelha enche a minha sala. E é quando a mesa começa a brilhar do polimento que percebo que é paz que encontro nesta tarefa. Aqui em Lisboa a olhar para Paris, e afinal a paz estava aqui tão perto.

Vamos muito depressa dizias .... eu disse-te que podíamos esperar e sussurraste-me. "Não. Eu quero. Quero-te dentro de mim."
Vou guardar estes momentos todos em que tentei aprender-te de cor.
Jaime Roriz, Agosto de 2003

Tudo

tudo quer dizer mesmo tudo: o livro das águas, a saúde do papa, a artrose da rainha da Inglaterra, o panarício do cavalo do bill clinton, o estado das finanças daquela criança que costuma pedir 20 cêntimos perto da estação do rossio e a empena do prédio abandonado da rua da escola politécnica onde tomamos uma imperial na "fabrica da cerveja" sei que faltou referir o estado lastimoso em que se encontra uma das jarras das flores que ornamentam o túmulo da madre Teresa de Calcutá de quem sou fervoroso devoto, mas ....

terça-feira, maio 10, 2005

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Homem
sem nome nem idade
diplomado em ódio visceral
com uma longa cicatriz a navegar-lhe no rosto
procura
para fins anárquicos
jovem mulher
da mesma idade
com os mesmos requisitos
e que nas horas restantes
saiba ser terna no amor

Sá de Matos