31 de dezembro de 2005 a caminho de praga .... sozinho em praga. Acabar de novo ... ora bolas ... é preciso fazer alguma coisa. Vou a Praga.
Antes da viagem começar ainda é preciso passar num cliente. Estou em casa, de banho tomado, passei duas horas numa banheira de agua quase a ferver para acabar com esta dor de costas que a viagem de avião que se avizinha provoca. Enquanto aperto os atacadores das botas faço mentalmente a viagem entre o meu apartamento da av de roma e o escritorio do meu cliente.
Decido preferir o meio da cidade em vez de ir pelas circulares de transito rapido onde não há semáforos mas também não há pessoas. Concebo o percurso e apercebo-me que vou passar perto da Sé - a catederal de lisboa - e da Igreja de Sto António padroeiro da cidade e dos namorados. É lá que as pessoas de Lisboa vão pedir uma namorada ou um namorado ao pobre do esforçado santo que, justiça lhe seja feita, atende sempre os pedidos. Com calma e empenho peço mentalmente ao santo que me arranje uma namorada, especifico as qualidades, que o santo tem que saber o que quero, e por fim acendo uma velinha na capela. Não posso, é um imperativo que me imponho, tirar dignidade, quer ao santo, quer à capela, quer às pessoas, quer à namorada que desejo. Sou agnóstico, é certo, mas a atitude religiosa está acima da postura filosofica que assumo sobre o assunto. Talvez eu apenas recuse, da religião, o que não gosto e fique apenas com o que gosto, colocando-me no papel do agricultor que quer fazer vinho e vender as uvas tudo ao mesmo tempo. Talvez me cubra de ridículo.
Obter de Sto António a graça de uma namorada, é um desafio ao destino. Como disse Jack London .... e os deuses hão-de continuar a rir-se.
Levanto vôo, tento assumir um ar de turista, fotografo a asa do avião - devem haver 500 milhoes de fotografias destas a ser tiradas neste momento, tantas quantas janelas de avião, neste momento no ar, têm visibilidade para a asa. É o meu casaco de turista. Sentado num café do aeroporto em Paris, sinto a agradvel sensação de estar a ser observado por uma mulher da minha idade, cuja nacionalidade desconheço mas que lê banda desenhada. À minha frente um casal jovem lê o jornal e ele acaricia ao de leve o braço dela. Passa quase uma hora nisto. Já não me lembro como é que aquilo se faz. Valha-me Santo António.
O meu traje de turista inclui umas botas de "salto de prateleira" são botas ribatejanas, passo no segurança que dá acesso ao avião e fazem-me tirar as botas para as passarem "na máquina que vê as coisas por dentro" rimo-nos todos da minha figura ridicula, sem botas, por fim revistam toda a gente menos a mim.
Vou tentar dormir um bocadinho, não sei que sonhos terei num cadeirão cor de laranja. Há pouco, no avião, sonhava que estava a sonhar que estava abraçada à Mafalda numa discoteca perdida no meio de um pinhal lá onde - esse sim - Judas perdeu as botas. Afinal era verdade, a Mafalda fez-me um jantar delicioso e levou-me a passear e a dançar até serem horas do avião e era essa grata recordação que povoava os meus sonhos. Linda jovem Mafalda.
Aborrece-me ja nao conseguir ler, nem escrever, sem óculos. Se, usar oculos de leitura, me dava um ar maduro e sofisticado agora é um handicap. De cada vez que tento decifrar um escrito em lingua checa e não consigo entender os caracteres, distancio-me mais de perceber estas pessoas. Cheguei a Praga com vontade de conhecer as pessoas daqui, a única maneira de o fazer é perceber como estas pessoas pensam, ou seja o que é que é importate para as pessoas.
Como andei a passear com a Mafalda, na véspera da minha partida, não dormi e estava cheio de sono às seis da tarde do último dia do ano. Perdi-me na cidade e dois jovens guiaram-me, a pé, até à rua do meu hotel. Rsolvi ir dormir uma sesta até às onze da noite. Horas antes, ao chegar a Praga, o meu cartão visa não me permitiu levantar coroas suecas. Pensei que a minha desorganização crónica já me tinha pregado mais uma partida desagradavel. Um telefonema para o banco, depois de passar uma hora a tentar descobrir o numero internacional, lá me revelou que afinal tinha-se apenas esgotado o limite diário de levantamentos.
Uma rapariga checa meteu-se comigo e perguntou-me se no voo Paris Praga tinha havido muita turbulência. Na viagem de taxi aprendo duas palavras em checo ; iekui - obrigado e promci - por favor. No dia seguinte de manhã aprenderia dublerana - bom dia. Chego ao hotel ainda muito perturbado pela falha do cartao visa e tudo me parece feio, estragado, partido e reles. Acho que estou a ser reoubado e vejo, com uma severidade de quem está chateado, nos olhos azuis e cabelo loiro do recepcionista, um ar nazi e explorador. Subo ao quarto, num elevador que não me inspira confiança, e depois do telefonema para o banco que me pacificou, instalo-me em Praga. Olho pela janela, abro-a e afasto um bocado de neve, num gesto que tantas vezes vi no cinema mas que faço pela primeira vez e olho para Praga através do ar gelado. Vai anoitecer em breve e a neve que cobre os telhados e os quintais, que Praga tem muitos quintais, dá à cidade um ar romântico.
Se a Mafalda, linda Mafalda, estivesse aqui pintávamos a manta penso.
Há uma miríade de pequenas coisas que afecta a vida das pessoas e que muda a sua atitude. Lá fora estão cinco graus negativos - o taxista disse-me que estava bom tempo - está a chover ou a nevar e é preciso preparar-me para enfrentar a intempérie. Durante estes dias, que vou passar em Praga, vai ser preciso fazer este ritual todo cada vez que entre ou saia de um sítio, cada vez que entre ou saia do Hotel.
Saio à rua, afinal o frio não é assim tão insuportável. Ainda bem que trago umas calças para o frio, debaixo das minhas calças de caqui, e o gorro e as luvas são acessórios essenciais. As minhas botas ribatejanas aguentam-se bem na impermeabilidade, mas muito mal em cima da neve. Escorrego uma duzia de vezes antes de ganhar este andar de pato que me impede de cair ao chão. Está a chover ou a nevar, mas só os estrangeiros é que usam guarda-chuva. Ora aqui está um povo prático. O guarda chuva é um artefacto péssimo. Desço a avenida que tem o nome do presidente da camara e entro no emaranhado de ruelas que me levará à ponte charles cuja história desconheço mas que é o ex libris da cidade. Praga tem pouco mais de um milhao de habitantes (o dobro de Lisboa) mas parece-me, talvez porque acabo de chegar de Paris, uma cidade pequena. As pessoas, não me parecem nada comunicativas, é um erro de paralaxe meu, estou sozinho, um pouco apreensivo, não sei orientar-me aqui, vai anoitecer, daqui a pouco há uma festa de fim de ano a que a tradição me manda comparecer, estou cansado por não ter dormido, viajei hoje 2247 kms - sejamos precisos - de avião, fiz duas escalas, e sabia-me bem conversar com pessoas e sentir o afecto de seres humanos. No estado em que estou isso não vai acontecer.
Tomado por estes pensamentos acalmo-me e fruo a minha solidão relativa.
Hoje é dia 31 de Dezembro, toda a gente está numa euforia histérica de festa, eu sou um estrangeiro e estou sozinho. Assisto a isto tudo, agora, com um sorriso nos labios. Encontro a ponte que procurava, tem um tapete de neve que não deixa ver o pavimento, escavo a neve com as minhas botas de salto de prateleira e não chego ao empedrado. Encanta-me isto. Japoneses, grupode de raparigas japonesas, chineses, ingleses, italianos - muitos italianos - franceses, alemães.
A ponte é a versão checa da avenida dos campos elísios em Paris.
Por varias vezes a musica que me calhou nos fones deu certinho com o que me estava a passar pela cabeça. Já deve ter acontecido a toda a gente. Ha pouco caminhava à saída do meu hotel em direcção aos sítios onde estão as pessoas. Pensava na ultima namorada que tive e cujas feridas de ter terminado ainda sinto. A musica que me calhou "La chanson des vieux amants" diz qqr coisa como isto "sim nós tivemos tempestades, .... , mil vezes pegaste nas tuas malas, mil vezes eu tomei o caminho da partida .... e cada movel se lembra das velhas tempestades" No segundo dia da minha estadia em Praga quando atravessava a ponte, desta vez a pedido da Dra Susana, as pessoas pareciam-me hostis. Coloquei os fones e a musica disse "People are strange when you are a stranger" Senti-me acompanhado e compreendido. É o Jim Morrison a fazer alguma coisa por mim quase cinquenta anos depois de ter morrido. Mais tarde pensava na Mafalda e a música disse "i was born to take care of you"
Os checos são um povo pratico. Na gramatica não usam artigos (o, a, um, uma) e na rua não usam guarda-chuva. As raparigas estão divididas em dois tipos, as que têm nariz convexo e não têm rabo e as que, portadoras de um belo e rotundo rabo, têm o nariz côncavo.
O comunismo - eles dizem sonho pesadelo opressão - foi implantado aqui em 1918, na sequência da queda do que restava do império austro hungaro depois do fim da 1a guerra mundial e beneficiando dos ventos que sopravam de moscovo depois da revolução de outubro de 1917. Em 1948 os sovieticos mandavam mais que os checoslovacos. Eu que sou um homem de esquerda - eu gostava de dizer comunista - fico chocado com isto tudo. Mas Praga está aqui a contar-me isto tudo ao ouvido e não ha nada a fazer.
Enquanto aqui estou recebo, de Portugal, a notícia que a doença da Felicidade não tem remissão. É uma amiga querida. É preciso fazer alguma coisa. Não sou médico. Xiça não sou Deus. E é com amargura que me deito no quarto durante umas horas a olhar para o cenario branco pela janela.
Praga.
De fones nos ouvidos atravesso a ponte que fica a montante da ponte Charles com o intuito de a atravessar a partir da outra margem. Caminho pela borda do rio, o caminho leva-me mesmo até à àgua. As pessoas passeiam por ali com as crianças e com os cães o que me dá oportunidades de confraternizar. Descubro que há uma coisa mais nojenta que cocó de cão na rua, é cocó de cão congelado.
Ponho-me de cócoras e vou experimentar meter a mão na água do Moldava. Está fria de partir ossos. A partir de agora sou mais de Praga. Meto-me no "Tram" uma espécie de trolei onde estranhamente, além de outras proibições, é proibido comer. Nunca me passaria pela cabeça uma coisa nem a outra. Comer num trolei ou proibir que se coma. A despeito das proibições e do disparate que tudo isto me parece, vários checos e checas, sacam do lanchezinho e lá vão comendo no "Tram" com o ar mais natural deste mundo. Mais tarde perceberia que essa mania é generalizada. Em qualquer momento se vê alguém a sacar de uma bucha e comer, panados, fruta, sanduiches, febras fritas com molho.
Vou-me deixando levar pelo no "Tram" até encontrar um aglomerado que parece um mercado de fruta. Desço. É um mercado chinês. Chamo-lhe chinês porque os mercadores são todos chineses. Em Praga raramente chove, mas neva três meses por ano e, nesses três meses, quando não chove ou neva, chove ou neva na mesma. Quer dizer .... não cai água nem neve do céu mas está tudo sempre molhado, o chão, os carros, as fachadas dos prédios, as minhas botas, os corredores do metro, o chão das lojas. Será por esse motivo que o mercado chinês está coberto por cima e pelos lados com umas lonas. Ali trabalham pessoas de todas as idades. A pessoa mais jovem que ali vi a trabalhar deveria ter sete anos, era uma menina que me vendeu umas pilhas que duravam 45 segundos (eu disse segundos, não minutos) no meu leitor de mp3. O mercado faz lembrar os cenários apocalípticos que o escritor de ficção científica Isac Asimov preconizava para 2006 e a que o cinema chamou Blade Runner. Lá compro as pilhas por um decimo do preço que me custaram umas, presumivelmente iguais, no aeroporto de Paris. Viva Praga penso antes de perceber que fui enganado.
Preciso de pilhas para o leitor de musicas. Quando me sinto aborrecido, ou as tentativas de perceber isto falham, coloco os fones e oiço musica. A música faz-me companhia. Eu digo, a música faz parte da felicidade.
Enquanto enregelo os pés na neve e tento manter-me na vertical faço breves considerações sobre a felicidade. Nestes quatro dias que aqui passei já vivi momentos felizes, sim.